A Porta
Esse é um poema adaptado da obra do poeta brasileiro Vinícius de Moraes
Eu sou de madeira
Madeira, madeira morta.
Mas ninguém é mais vivo
Do que uma porta.
Eu abro devagar
Para o menino passar.
Eu abro com cuidado
Para passar o namorado
Abro ligeira
Para passar a cozinheira
Abro de supetão
Para passar o capitão.
Só não abro para essa gente
Que abre a porta como quem não se importa.
E que xinga todo mundo
“Você é burro feito uma porta”
Fique sabendo: eu sou muito inteligente!
Eu fecho a entrada da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Mas fico sempre aberta no céu.
A obra completa pode ser acessada aqui: https://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/porta

[…] Tony R. de M. Rodrigues7/7/2026No dia do meu aniversário (hoje, 7/7), resolvi me dar de presente uma resenha sobre um poema infantil do escritor, dramaturgo, compositor e poeta carioca Vinícius de Moares, falecido em 1980, ano que me serviu de porta de entrada para este mundo, e porta de entrada, para o céu, de Vinícius.Em seu poema “A porta”, Vinícius construiu a imagem de uma porta que, insuspeitamente desprovida de inteligência – talvez por costumeiramente ser tomada como um ser inanimado –, por outro ângulo se desdobra em um ser não apenas animado (e falo aqui de alguém com bom humor para muito além da função que exerce no mundo), e não apenas capaz de reconhecer a singularidade de cada ser que deseja passagem por sua estrutura, e não apenas ciente de que precisa compreender quando abrir e fechar, mas, justamente tomando um bullying de si mesma como ponto de partida para traçar a possibilidade de uma jornada de leitura a quem interessar possa, a porta de Moraes pode funcionar, veja-se bem, como uma chave inclusiva de leitura, porque mostra habilmente que o diferente, mesmo quando tomado por algo/alguém inferior, “burro como uma porta”, “inanimado”, pode, isto sim, ser devolvido a seu lugar de bem-querença como alguém/algo capaz, ciente, animado, que sabe justificar para si mesmo (para além do autor e do leitor) por que abriu desta ou daquela vez para passar esta ou aquela pessoa, e que sabe até do seu limite, ao confessar que só fica aberta no céu. Temos aqui o velho e bom Vinícius, diplomata brasileiro que, por amizade aos falantes, sempre foi dedicado para com as palavras, fosse estudando, escrevendo, trocando, sentindo, vivendo e oferecendo o que há de melhor nelas. Pelo poema “A porta”, vê-se, entre outras coisas, para além do que está atrás e na frente da porta: vemos também, de forma mais sensível, quem está ao nosso lado.O reverso da medalha, porém, também precisa ser considerado: Vinícius viveu, não só como diplomata, escritor, dramaturgo e compositor, uma época tão delicada para muitas famílias brasileiras como uma epidemia de covid-19: a época da ditadura militar brasileira e, como a época (recente) da covid-19, não devemos ficar cultuando nem revivendo a tragédia, que assolou tantas famílias, do mesmo jeito que não devemos nos esquecer dessas duas partes de nossa história recente (1964-1988 e 2019-2023), porque, se por um lado “a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”, sua reinvenção se dá com nossos dois pés bem firmes dentro da água que refresca o sambaqui onde enterramos nossos entes queridos desde há muito, pois sempre seremos filhos entes queridos de alguém, seja no sangue ou na escolha.Preparei uma listinha de links para acesso a alguns conteúdos legais sobre a vida e obra de Vinícius, inclusive sobre uma adaptação, para o exterior, do poema “A porta”, e links também de outras iniciativas legais:https://readbrazilianportuguese.com/a-porta/http://acervo.viniciusdemoraes.com.br/https://bndigital.bn.gov.br/vinicius-de-moraes/https://www.viniciusdemoraes.com.br/https://www.youtube.com/watch?v=-ab_aji9JKIhttps://www.youtube.com/watch?v=dxerTuae-X4https://www.youtube.com/watch?v=AlCxSaFE9NQhttps://literaturabrasileira.ufsc.br/?locale=pt_BRhttps://www.gutenberg.org/https://www.instituto-camoes.pt/Boa leitura! Carpe diem! […]